Prezado (a) leitor (a)

Paz e Bem!

Os dois últimos anos talvez entrem para os anais da história como os anos mais assustadores, inseguros e tristes que os tempos modernos já testemunharam. A pandemia de Covid não poupou nenhum canto do planeta. A força quase incontrolável de um vírus invisível colocou a humanidade de joelhos. As imagens espalhadas pelos meios de comunicação, ao mesmo tempo em que contribuíram para alertar a todos do perigo, também espalharam o terror, anunciando diariamente “o avanço da peste”, com o crescente número de mortos, ilustrado pelas cenas aterradoras de doentes amontoados nos hospitais, caixões empilhados, mortos insepultos. A lenta, mas decisiva batalha pela descoberta da vacina revelou o que de melhor a humanidade é capaz de produzir, quando o conhecimento científico e os mais nobres ideais caminham lado a lado, na busca pelo bem comum.

O ano de 2022 iniciou-se trazendo consigo um alentador otimismo, na esperança de que a situação iria mudar para melhor. Com o atenuar-se da pandemia, com o avanço da imunização, parecia que a vida iria aos poucos voltar ao seu ritmo “normal”. No entanto, já nos primeiros meses do ano, a ganância, a falta de diálogo e a sede de poder e domínio sem limites deram origem a um sério e assustador conflito bélico, acendendo o alerta vermelho do risco de uma hecatombe de consequências imprevisíveis. Por outro lado, a natureza também continua a clamar, alertando que o tempo para evitar uma catástrofe climática global está se esgotando: tragédias ambientais se repetem, causando destruição e morte, sobretudo entre os mais vulneráveis. Em muitos países, inclusive no Brasil, testemunha-se o recrudescimento de comportamentos desumanos, de racismo, violência, aporofobia, xenofobia, com a ascensão de grupos de extrema direita, alimentando e disseminando discursos de ódio, de apologia às armas e à violência contra as minorias, de autoritarismo e de ameaças à democracia. Os avanços da tecnologia, que tantos benefícios podem trazer à humanidade, às relações, criando laços fraternos e solidários, são empregados cada vez mais a serviço da mentira. Aos poucos parece que fica cada vez mais evidente que o vírus mais perigoso e letal não é o vírus da Covid, mas é o próprio ser humano.

É papel da teologia oferecer subsídios que possam contribuir para uma visão crítica da realidade, do contexto histórico em que se está situado, a partir dos valores e princípios evangélicos que norteiam nossas convicções. Também deve indicar pistas para a ação, a fim de promover a transformação da realidade, pautada por valores cristãos, éticos, humanos, que possam gerar vida, dignidade e alimentar a esperança. Nesse sentido, a espiritualidade é uma importante aliada na construção de uma sociedade onde solidariedade, humanidade, cortesia, respeito, diálogo, não sejam apenas belas e educadas expressões, mas constituam-se em atitudes que transformem a realidade.

Neste número da Revista Grande Sinal trazemos algumas reflexões que, despretensiosamente, pretendem contribuir para a reflexão sobre alguns elementos que são imprescindíveis para a evidenciação e o fortalecimento dos mais preciosos e inalienáveis valores que constituem a pessoa humana. Valores que são inegociáveis, sob o risco de perdermos a essência daquilo que nos identifica como “seres humanos”.

A escuta, como capacidade de sair de si mesmo, de ir ao encontro do outro, sem esperar que o outro se configure ao meu modo de ser e de pensar, é um dos elementos inalienáveis para um sadio, solidário e maduro desenvolvimento humano. A escuta possibilita o diá-logo, a troca de saberes, o crescimento mútuo. É através da escuta sincera, desarmada, atenta e cordial, que conseguimos derrubar muros e construir pontes. Deixamos nossa ilha, para nos constituirmos em arquipélagos. Professor Adenilson Quirino nos brinda com uma excelente reflexão sobre a escuta como capacidade essencial para que possamos “caminhar juntos”, para juntos construir um mundo de relações, de comunicação, onde o diálogo e a compreensão sejam os objetivos maiores.

O exercício de ir ao encontro do diferente, desarmado, disposto ao conhecimento mútuo, ao diálogo, em vista da busca do bem comum, também tem sido uma das tônicas do pontificado do Papa Francisco. O professor frei Francisco Fresneda, da Universidade de Múrcia, Espanha, faz uma análise das visitas do Bispo de Roma aos três grandes líderes do mundo islâmico, no Marrocos, no Egito e em Abu Dhabi. Tais visitas assinalam um esforço sincero e concreto de estender as mãos, de construir vias, de juntar forças em vista de valores comuns, para que as religiões se constituam em canais de fraternidade, não em barreiras de separação. Nesse sentido, o Francisco de Roma, 800 anos depois, repete o gesto do Francisco de Assis, que, em 1219, em plena cruzada, desarmado e pobrezinho, foi ao encontro do Sultão do Egito, para anunciar-lhe a Paz e o Bem.

Uma consciência que vai aos poucos se tornando comum é de que as graves questões ambientais que ameaçam a sobrevivência da humanidade não têm a ver só com o meio ambiente, com a “ecologia”, mas estão profundamente interligadas com o modo como o ser humano se coloca no mundo, como se relaciona entre si, com os bens, com as realidades e, consequentemente, com toda a criação. Nesse sentido torna-se cada vez mais evidente que formamos parte de um complexo muito mais extenso e grandioso. O professor Martín Carbajo, frade franciscano, docente em várias universidades da Europa e nos Estados Unidos, no seu artigo intitulado “Tudo está conectado”, nos ajuda a entender como as inter-relações são fundamentais para o ser humano assumir um novo modo de ser, frente ao mundo e frente à própria humanidade. Como afirma o Papa Francisco, “Só unidos e cuidando dos mais frágeis podemos vencer os desafios globais”. À luz da encíclica Laudato Si’ e das intuições do teólogo Romano Guardini, o autor se debruça sobre a necessidade de um novo paradigma relacional, que permita superar a atual crise socioambiental e ajude a estabelecer relações interpessoais autênticas. Temos que passar da “globalização da indiferença”, à certeza de que somos uma única família, onde o humano conviva em harmonia com todas as realidades que constituem o mundo.

Desde o Concílio Vaticano II a questão do papel dos leigos e leigas na Igreja foi colocada em pauta. As discussões, estudos, polêmicas que se seguiram, contribuíram para a crescente conscientização de que o leigo não é um “ajudante do padre”, nem lhe é submisso, mas que tem um lugar que lhe é próprio na comunidade de fé. O artigo do professor Jefferson Machado nos permite conhecer a trajetória do laicato na Idade Média, particularmente sob a ótica dos mendicantes franciscanos, e o modo como o laicato passou a ser visto no decorrer da história. Certamente um longo caminho ainda deverá ser percorrido, até que se consiga trazer à tona toda a clareza da importância do lugar do leigo e da leiga, que foi intuída pelos padres conciliares, mas que na prática esbarra em tantas barreiras. Basta recordarmos as duras palavras do Papa Francisco, denunciando a “praga do clericalismo”, que tocam num dos pontos mais sensíveis, que impedem leigos e leigas de assumirem o lugar que, por direito, lhes compete na Igreja.

Sem dúvida o santo negro de maior devoção no Brasil é o franciscano São Benedito. Frei Alvaci Mendes da Luz, que concluiu na PUC-SP sua tese de mestrado sobre “a santidade franciscana de cor”, faz um sobrevoo sobre a devoção a santos franciscanos negros na Itália, de modo particular na Sicília, nos séculos XV-XVI, e o modo como a devoção a estes santos espalhou-se pelos domínios ibéricos. Uma análise feita a partir de um sério aporte documental, que nos permite perceber a importância da pesquisa histórica no resgate das raízes da religiosidade no Brasil, na preservação da memória, dos valores culturais e da fé do povo.

Conhecer as Bem-aventuranças é entrar em contato íntimo com o núcleo do ensinamento de Jesus. O professor José Abel de Souza partilha conosco uma profunda e bem articulada reflexão onde nos apresenta as Bem-aventuranças em Mateus e Lucas, como possibilidade de um novo modelo de existência, a partir da proposta de Jesus de Nazaré, alicerçada na lógica do amor.

Em 2019 o Papa Francisco lançou o Pacto Educativo Global. Em 2021 celebramos os 100 anos do nascimento de Paulo Freire, digníssimo Patrono da Educação Brasileira. A Campanha da Fraternidade, fazendo eco a estas celebrações, e também celebrando os 40 anos da Pastoral da Educação no Brasil, propôs como tema: “Fala com sabedoria, ensina com amor”. O Professor Robson Ribeiro de Oliveira, que atua diretamente no “chão da escola”, experimentando na própria pele os desafios, as alegrias e as esperanças no campo cotidiano da educação, nos brinda com uma breve reflexão sobre o tema.

Vivemos momentos sombrios no Brasil e no mundo. No entanto, sempre há esperança, quando se acredita no bem comum, na dignidade e no valor da pessoa humana. Animados pelas celebrações pascais, que nos fazem experimentar a certeza da vitória sobre a morte, podemos nos inspirar na expressão do grande Paulo Freire: a verdadeira esperança é “esperançar”. Que os textos, as reflexões e demais contribuições tão generosamente partilhados por nossos colaboradores, a quem cordialmente agradecemos, contribuam para nos indicar caminhos, sendas, trilhas, a fim de que possamos nos transformar em “acendedores de esperança”.

Fr. Sandro Roberto da Costa, ofm

Redator

Publicado: 17-05-2022