Prezado (a) leitor (a)

Paz e Bem!

O ano de 2020 começou promissor. Embora ouvíssemos no ar alguns “boatos” sobre um vírus que, desde fins de dezembro de 2019 estava se espalhando rapidamente pelo mundo a partir da China, a vida seguia seu ritmo. Continuamos fazendo nossos projetos, calculando os riscos para enfrentar os desafios, elaborando estratégias a partir das perspectivas de uma existência normal. Ninguém de nós imaginava que chegaríamos, em menos de dois meses, à maior emergência sanitária da história nos últimos tempos. Em poucas semanas, planos e projetos consolidados desmancharam-se no ar, milhões de vidas foram ceifadas, economias dissiparam-se de uma hora para outra. Embalados pela onda de pânico que grassou por toda parte, a Pandemia de COVID-19 revelou o que de melhor e de pior o ser humano traz em seu coração.

Demonstrações de profundo respeito pelo próximo, gestos sinceros de solidariedade, partilha e fraternidade, vieram à tona, ao lado de expressões de desprezo pela vida, de desdém pelo diálogo, pelas instituições, pela ciência. “Sairemos melhores dessa” afirmam muitos, certamente na esperança de encontrar algum sentido para tanto sofrimento. Certamente sairemos diferentes. Melhores, talvez. Costumou-se afirmar também que “estamos todos no mesmo barco”. Talvez seja mais acertado afirmar que estamos todos no mesmo rio. O grande rio da vida, mas em barcos distintos. A grande maioria em uns pobres e frágeis barquinhos de madeira, outros agarrados a destroços, para não submergir à força das águas e da correnteza. Outros, bem poucos, confortavelmente acomodados em seus luxuosos transatlânticos.

Na verdade, a Pandemia, como sói acontecer em momentos extremos, revelou, a muitos de nós, o que somos de fato, o que nos constituiu. Somos feitos de sonhos, embalados por ilusões, vivendo de projetos e esperanças que nem sempre se realizam. Ilusões, imagens, percepções, que se transformam em pó, diante da ameaça de um vírus, que pode pôr fim à nossa existência. Grifes luxuosas, roupas, bolsas e calçados “de marca”, festas dispendiosas, férias no exterior, tudo passou a segundo plano, em nome da defesa da própria vida. A Pandemia levou-nos a terríveis experiências de desumanização: o distanciamento social, a morte na solidão de um quarto de hospital de campanha, a dor dos que ficaram, sem poder se despedir de seus amados com um mínimo de dignidade. Por outro lado, ações e gestos tão banais e cotidianos, passaram a ter um outro valor: o abraço terno e carinhoso na pessoa querida, um encontro com os amigos num fim de tarde, um simples e sincero aperto de mãos, a liberdade de poder ir e vir sem medo de contrair o vírus. Até os sorrisos desapareceram, encobertos pelo protagonismo das máscaras.

A Pandemia de COVID-19 veio agravar uma série de outras crises, ou até mesmo uma série de outras “pandemias”, que já fazem parte de nosso cotidiano. Talvez a mais séria, raiz e fonte de onde derivam tantas outras “crises”, é a crise do humano. Aos poucos fomos nos esquecendo que não somos imortais, que não somos indestrutíveis, nem super-heróis. Tínhamos solução para todos os desafios e problemas possíveis na face da terra, tudo medido, controlado, quantificado. Até que apareceu no horizonte um mísero vírus invisível, que nos colocou a todos de joelhos. Lembramo-nos, de repente, que somos seres humanos, feitos todos da mesma matéria, todos com um destino comum.

Apesar dos imensos avanços da tecnologia e da ciência, e das conquistas no campo dos direitos e da dignidade humana, a ganância, a prepotência e a sede de domínio sobre tudo e todos continuam dando as cartas. Estamos trilhando um caminho sem volta. Injustiça social, miséria, fome, desemprego, gerando verdadeiras multidões de “descartáveis”, são as faces mais explícitas deste sistema. Outra face é a destruição sistemática dos biomas e ecossistemas, com os graves desastres ambientais e os fenômenos climáticos cada vez mais severos, ameaçando o futuro da humanidade e de toda a criação, em nome do lucro e do poder desmedido de uns poucos.

Vivemos num momento de verdadeira “crise”, no sentido mais estrito da palavra. Como em todas as crises, temos a chance de sairmos dessa situação purificados. Uma purificação dolorida, mas necessária, que nos leve à mudança de mentalidade a partir de novos paradigmas, onde o que conta é justamente o humano, e tudo o que lhe diz respeito. A vacina está a caminho. Certamente vamos dominar o vírus. Mas as outras pandemias continuam. Somente a partir de um empenho coletivo, por uma transformação pessoal e comunitária, olhando para além de nossos horizontes estreitos e mesquinhos, poderemos ter alguma esperança de que algo novo possa brotar. A atenção e o desvelo para com os mais frágeis dentre nós, especialmente os pobres, as crianças, os idosos. A abertura ao diálogo e o respeito às diferenças, o cuidado com todas as criaturas e a urgente necessidade de pôr um limite à ganância humana. A emergência sanitária nos obrigou a colocarmos tanta coisa em segundo plano, e até mesmo a descobrirmos o quanto somos dependentes de coisas que, na verdade, são supérfluas. De repente descobrimos que a essência de nosso existir não se define a partir do dinheiro, do poder, do status. Do que precisamos de fato para sermos felizes?

Este número da Revista Grande Sinal foi elaborado antes da eclosão da Pandemia. Os artigos que aqui apresentamos, no entanto, podem se somar às iniciativas de tantos que buscam refletir sobre a terrível realidade que estamos vivendo. A partir do tema, “lugar e relevância da mística numa sociedade secular e secularizada”, os autores nos conduzem pelas várias vertentes de uma espiritualidade que pode nos fazer seres humanos melhores. Se antes desta tragédia de proporções mundiais a espiritualidade e a mística já apareciam como uma importante aliada no caminho de uma re-harmonização do humano, depois da COVID-19 isto tornou-se quase um imperativo.

O professor e pesquisador Martín Carbajo, frade franciscano espanhol, atualmente trabalhando em Roma, junto à Pontifícia Universidade Antonianum, autor de inúmeros livros e artigos, nos oferece uma reflexão a respeito da inspiração do papa Francisco na elaboração da Laudato Si’. No artigo intitulado “Místico e peregrino: Francisco de Assis, inspirador da Laudato Si’”, o autor destaca a importância da espiritualidade de Francisco de Assis na elaboração da Encíclica do papa sobre o meio ambiente. Uma mística que motiva para a ação pessoal e comunitária, sem voluntarismo, mas com uma verdadeira “paixão pelo cuidado do mundo”, como afirma o Papa no documento. Diante dos profundos desafios na vivência de uma ecologia integral, onde o humano e todas as criaturas partilhem do mesmo destino comum, fica cada vez mais evidente a necessidade de uma transformação do coração, mais do que da cabeça. A tradição intelectual franciscana, sistematizada pelos mestres como Boaventura e Alexandre de Hales, representam uma alternativa ao atual paradigma tecnocrático, que reduz tudo a objeto de análise e dissecação, com o intuito de domínio. Na Escola Franciscana, como afirma o autor, “conhecer é reconhecer, é deixar-se abrir para o mistério, é crescer em sabedoria e em capacidade de amar”. Indicações e inspirações muito oportunas e atuais.

A professora e teóloga equatoriana María Alejandra Andrade, socióloga e especialista em cooperação internacional para o desenvolvimento, nos provoca com uma reflexão acerca da espiritualidade como um fenômeno antropológico e universal, enquanto capacidade intrínseca a todo ser humano. Como afirma a autora, aquilo que se convencionou denominar crise ambiental e crise da humanidade, na verdade são consequências da ruptura das relações com Deus, com os outros, consigo mesmo e com toda a criação. Essas relações fragmentadas deram origem ao que ela denomina uma verdadeira “desconexão cósmica”, que, em outras palavras, é uma verdadeira “crise de espiritualidade”. Chegamos a tal ponto de ruptura que somente uma “espiritualidade regenerativa” poderá permitir à humanidade estabelecer novos parâmetros de relações, que priorizem a inter-dependência, a interconexão e o cuidado, sobrepondo-se à acumulação, à ganância, à competição e ao capital.

Reflexões em torno à minoridade: de Francisco de Assis a Francisco de Roma, é o título do artigo escrito a quatro mãos pelos freis Aldir Crócoli, frade capuchinho missionário no Haiti, e frei Vanildo Zugno, também capuchinho e professor na Estef (Escola Superior de Teologia e Estudos Franciscanos), de Porto Alegre. A minoridade é um elemento fundante do carisma franciscano. É a base e o princípio de sua experiência relacional com o Criador, com os irmãos, e com todas as criaturas. Nas atuais circunstâncias, onde a prepotência e a autorreferencialidade nos conduziram a situações extremas de desumanização, de risco aniquilação da natureza e de todas as criaturas, a reflexão a respeito da minoridade de Francisco de Assis é pertinente e atual. Guardadas as devidas diferenças de contexto, os autores buscam fazer uma relação no modo de expressar a minoriade entre os dois Franciscos: o de Assis e o de Roma. Nesta edição, trazemos a primeira parte do artigo.

Por ocasião da comemoração dos cinco anos da publicação da Encíclica Laudato Si’, Moema Miranda, professora do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis, com um destacado engajamento na discussão dos conflitos e busca de soluções para as questões ambientais, faz uma avaliação da incidência da Encíclica, os avanços, os retrocessos, as esperanças que persistem no horizonte. No artigo intitulado Laudato Si’, 5 anos: Esperança e a perigosa arte de nomear demônios, Moema vai desvelando os meandros de todo o rico aparato que possibilitou ao Papa Francisco produzir este que é certamente o mais importante documento a respeito daquilo que conhecemos como “ecologia integral”. Ao mesmo tempo abrangente e instigante, o artigo deixa no ar o odor da esperança que brota do engajamento profético pelas grandes causas. O artigo de Moema também terá continuidade no próximo número.

Na parte intitulada “Reflexões”, trazemos a primeira parte de um artigo do Redator da Revista, frei Sandro Roberto da Costa, sobre a Ordem das Viúvas. Uma Ordem que finca suas raízes nas origens da história da Igreja, e que após o Vaticano II começou a ser redescoberta, como uma possibilidade de realização de viúvas (e possivelmente viúvos), a serviço da Igreja.

Nestes tempos sombrios, muito se empregou a palavra “isolamento”, “distanciamento”. São expressões que traduzem uma necessidade, na tentativa de evitar a propagação de um mal que se multiplica através dos contatos humanos. No campo da mística também estas expressões costumam ser usadas, para expressar os meios de se alcançar uma maior sintonia espiritual. O professor Francisco Fresneda, da Universidade de Múrcia, na Espanha, nos ajuda a refletir sobre o itinerário da mística cristã, não como isolamento, como fechamento num egocentrismo e intimismo inócuo, mas como inserção, participação e transformação fecunda na história, a partir do exemplo do próprio Jesus de Nazaré. Como o autor questiona em seu artigo: “Por que o cristianismo não pode admitir um contraste entre a vida ativa e contemplativa? Por que tantos mestres de espiritualidade igualam oração e serviço aos pobres? A resposta será buscada a partir das Escrituras, lidas segundo a interpretação franciscana.

Na sessão Textos Seletos, Frei Amir Ribeiro Guimarães, ex-Redator desta Revista, tece oportunos comentários sobre vários pronunciamentos do Papa Francisco nos tempos da Pandemia, reunidos numa publicação da Libreria Editirce Vaticana, intituladas “Vida após a Pandemia”.

A experiência que todos estamos vivenciando nestes tempos difíceis certamente terá incidência sobre nosso modo de nos colocarmos no mundo. Muitos de nós descobrimos que várias das atividades “extremamente importantes” que realizávamos, na verdade podiam ser e foram, de fato, substituídas, ou até, desapareceram. Esta situação nos fez distinguir entre o que é essencial e o que é transitório, passageiro, e até supérfluo em nossas vidas. A simplicidade e a praticidade suplantaram a sofisticação desnecessária, e nos permitiram valorizar mais as coisas do espírito. A busca pelo transcendente, no entanto, não nos desobriga do compromisso no engajamento pela transformação das realidades humanas. Não são realidades opostas ou em conflito. Pelo contrário, a busca da simplicidade pode liberar espaço para que nos preenchamos daquilo que é essencial, irrenunciável e necessário: o que dá verdadeiro sentido à nossa existência e nos fortalece na luta. Os artigos deste número podem nos fornecer preciosas indicações neste caminho. Boa leitura.

 

Frei Sandro Roberto da Costa, ofm

Redator

Publicado: 09-11-2020